Expedição Arquipélagos chega ao fim. Biólogo percorre litoral brasileiro de Caiaque. Crédito da foto arquivo Albino
Carioca, de 38 anos de idade, Albino Marchon é residente de Vitória, Espírito Santo. De Caiaque, percorreu 8.543 quilômetros pelo litoral brasileiro com garra e coragem. Ele começou na Canoagem Oceânica graças a Simone Duarte, a canoista do Rio de Janeiro, ensinou-o a introdução ao esporte onde seguiu adiante.Após remar, fez o último trecho da viagem a pé, andou cerca de 816 KM de Laguna ao Chuí, trajeto completado em 28 dias.
Mas a maior parte dos 333 dias de viagem foi cumprida remando em um caiaque (do Oiapoque a Laguna) boa parte com uma pá do remo de plástico quebrado. No total, gastou R$ 7 mil — ou seja, R$ 21 ao dia, praticamente apenas com alimentação.
"Comia só PF (prato feito), coisas baratas e cortesia de amigos e amigas que fiz pelo litoral...era comentar de eu vinha, para aonde iria... as portas eram abertas" relata Albino Marchon.
Na bagagem de Marchon, tinha uma mochila com dois calções, boné, duas camisetas, uma capa de chuva, barraca, água e colete salva-vidas. Voltou com algumas fotos e muitas histórias, colecionadas durante estadias em barcos de pescadores que cruzaram seu caminho, casas de desconhecidos ou "quase solitário" no meio do oceano.
"Não teve um só dia em que não tenha encontrado alguma pessoa. Mesmo que fosse em um barco distante, sempre cruzei com alguém" conclui Albino.
No litoral paulista, ele encontrou o CEO do REMADAS ao chegar remando, vindo de Bertioga até Praia Grande, onde passou a noite após uma cortesia de comidas e bebidas, dormiu e logo que clareou o dia entre muito vento leste e chuva, partiu remando a bordo do Caiaque Vermelho até Itanhaén, depois Juréia em Peruíbe - São Paulo onde pretendia terminar mais uma etapa da viagem remando.
O caiaque, do tipo oceânico (4,5 metros, com bagageiro), custou entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil — valor não contabilizado no custo da viagem. Partiu de Vitória onde reside, sem celular, bússola ou GPS, rumo ao Oiapoque, na primeira fase do tour litorâneo.
Em uma das etapas desta jornada, Marchon fez um intervalo para esperar o verão, já que as condições marítimas do período seriam mais favoráveis. A segunda fase da viagem foi entre Vitória e o Chuí. O litoral praticamente ininterrupto a partir de Laguna o convenceu a seguir a pé, deixando o caiaque vermelho na cidade catarinense, mais precisamente em uma vila de pescadores.
De todo o percurso, Marchon considerou os dois mais perigosos, a travessia do Rio Ribeira de Iguape em São Paulo, onde uma enchente varreu toda parte ribeira do rio e o da costa da Região Norte. No Amapá, conta, onças chegam à beira da praia e avançam contra pescadores. Na Ilha de Marajó, no Pará, piratas armados atacam embarcações e casas de moradores no Estreito de Breves. Por isso, ele preferia pedir um canto para dormir em barcos, o que nem sempre dava certo.
" ...Uma noite, remei a noite toda no Amapá porque não achei um barco" afirma Albino por email.
Ainda assim, não foi vítima de assalto ou outro tipo de violência uma vez sequer. Apenas evitava dormir em praias com vida urbana própria, por exemplo: Santos que é uma baía, neste ponto da travessia ele optou em passar remando vindo de Bertioga por fora da baía santista, pois o caminho era bem menor se fosse costeando as margens do Guarujá, Santos, São Vicente até chegar na Praia Grande, uma das etapas concretizadas com sucesso. Sobre os perigos do mar, dava um jeito de trocar ideias com os pescadores até mesmo com os locais mais casca-grossa da região.
"Eles conhecem muita coisa. Parecem geólogos, biólogos. Os caras que moram há 30 anos em um lugar sabem o que muda (no mar) e quando muda"
Veja algumas curiosidades da viagem relatadas por Marchon:
Números
- Dos 333 dias de viagem, 196 foram chuvosos
- Não tomou banho por 44 dias. Só com água do mar
- Viu 607 golfinhos, 224 tartarugas marinhas, dois peixes-bois marinhos (no Maranhão), uma baleia jubarte (em Búzios), um tubarão (em Itacaré, na Bahia), um lobo-marinho (Cassino)
- Passou por 227 rios, 660 ilhas, 47 baías, 34 lagoas, 84 unidades de conservação da natureza, 512 cidades e povoados, 1.575 praias e seis cachoeiras que caem direto no mar (quatro no RJ e duas em SP)
Momentos marcantes
- Revoada de milhares de papagaios no arquipélago de Bailique, no Amapá
- Bioluminescência de algas à noite em Barbados, na Baía dos Pinheiros, no Paraná
- Pesca cooperativa de botos e pescadores em Laguna, Santa Catarina
Trechos menos povoados
- Parque Nacional do Cabo Orange (AP)
- Praia do Cassino (RS)
- Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA)
Pontos mais distantes da costa alcançados
- Ilha da Coroa Vermelha (Nova Viçosa-BA), 15 quilômetros
- Ilha dos Currais (Pontal do Paraná-PR), 11 quilômetros
- Ilha de Maracá (Amapá-AP), 10 quilômetros
Animais encontrados mortos entre Quintão e Chuí
- 88 tartarugas, 11 baleias, seis leões-marinhos, três golfinhos, um lobo-marinho, uma toninha, um pingüim-de-magalhães
Segunda tentativa
Essa não foi a primeira viagem de caiaque do biólogo pelo litoral brasileiro. Em 2004, ele foi de Vitória a Florianópolis. Foi uma viagem ainda mais econômica: saiu de casa com R$ 300 para dois meses, isto é, disposto a gastar R$ 5 por dia. No meio do caminho, porém, teve de ligar para os pais e pedir dinheiro. Os R$ 400 que recebeu não foram suficientes para terminar a viagem. Para voltar a Vitória, teve que solicitar ajuda de catarinenses para pagar a passagem de ônibus.